Por Paulo Moreira LeiteRevista Época
Olho para as imagens de Santa Catarina submersa e me lembro de quantas vezes nós já vimos essa cena. Não dá ara acreditar no que se vê — há muito tempo.Morreram dezenas de pessoas neste fim de semana. Mais de 15 000 ficaram sem suas casas. As enchentes não têm a ver com aquecimento global. Têm a ver com o esfriamento mental de nossas autoridades municipais, estaduais e federais. Não vamos nos enganar: um país com um PIB de US$ 1,5 trilhão tem condições de realizar trabalhos de infraestrutura para garantir um mínimo de segurança à sua população. Não precisamos de uma infraestrutura luxuosa de país desenvolvido. Mas temos condições de possuir estradas seguras e cidades protegidas. Quem diz o contrário apenas mente. Não estamos falando de áreas invadidas — e precárias — nem de ocupações de emergência. Estamos falando de cidades inteiras, com suas ruas, postes, lâmpadas, escolas, hospitais, prefeitos… Não são áreas desbravadas, mas cidades antigas, problemas conhecidos, com soluções conhecidas — há muito tempo. Nada se faz. Leio nos jornais que hoje o ministro Geddel Lima decidiu mandar um aspone para fazer uma vistoria no local. Já o governador Luiz Henrique tem andado de um lado para outro, dentro do Estado, em busca de uma solução. Ótimo. Quem sabe na próxima enchente eles tenham uma idéia. A dor das pessoas comuns, seu sofrimento, a tragédia de vidas destruídas, nada disso é prioridade. É como se fossem dramas passageiros — como as águas que sobem, destroem, ferem e matam, mas voltam ao nível normal depois da chuva e não se fala mais nisso. Parece uma punição divina, uma praga dos céus — conformismo antigo que autoridades marotas estimulam para escapar de suas responsabilidades. Essa tragédia reflete o caráter aparente e superficial de nossa democracia. Enchentes e inundações ocorrem em diversas partes do planeta. Mas só se transformam em tragédias quando as necessidades das pessoas comuns não fazem parte da prioridade do Estado, quando as dores do povo jamais recebem atenção devida. Antes e depois do aquecimento global, as águas que anunciam o verão produzem tragédias variadas no país. Há meio século, políticos que salvavam pessoas e socorriam famílias chegavam a ser tratados como heróis. Esse tempo passou, concorda?
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